{"id":2031,"date":"2022-07-17T15:42:11","date_gmt":"2022-07-17T18:42:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.compasso-dos-ventos.com.br\/v2.0\/?p=2031"},"modified":"2022-07-17T15:42:11","modified_gmt":"2022-07-17T18:42:11","slug":"18-12-2018-nem-pisque-em-se-eu-fechar-os-olhos-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.compasso-dos-ventos.pt\/editora\/18-12-2018-nem-pisque-em-se-eu-fechar-os-olhos-agora\/","title":{"rendered":"18\/12\/2018 &#8211; NEM PISQUE EM SE EU FECHAR OS OLHOS AGORA"},"content":{"rendered":"<p>Por Cristina Padiglione<\/p>\n<p>Perd\u00e3o pelo trocadilho no t\u00edtulo, mas a s\u00e9rie que Ricardo Linhares adaptou do livro hom\u00f4nimo de Edney Silvestre mant\u00e9m atentos, quase estatelados, os olhos de um telespectador que vai descobrindo as camadas de uma hist\u00f3ria norteada por segredos inconfess\u00e1veis, segundo reza o fantasminha de todos n\u00f3s, e a hipocrisia da alta casta, tudo arraigado num racismo que o brasileiro insiste em dizer que n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Como \u00e9 um t\u00edtulo ofertado ainda s\u00f3 pelo streaming, com seus dez epis\u00f3dios dispon\u00edveis, a compuls\u00e3o pela maratona \u00e9 inevit\u00e1vel, tamanha \u00e9 a habilidade da narrativa em conduzir a plateia pelo prazeroso processo de desvendar cada p\u00e9tala dessa cebola que ali se apresenta, cap\u00edtulo por cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie s\u00f3 est\u00e1 dispon\u00edvel no NOW, por um custo que supera o valor de assinatura b\u00e1sica de Netflix ou GloboPlay. Tem status de produto premium, e faz jus a tanto, mas bem que poderia j\u00e1 estar ao alcance dos assinantes do servi\u00e7o de streaming da Globo, tornando o t\u00edtulo mais acess\u00edvel a um p\u00fablico maior. Ao disponibilizar a s\u00e9rie apenas no NOW, com custo a la carte, a Globo fez do produto uma cobaia para as novas experi\u00eancias de neg\u00f3cios do ramo, com suas v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es de janela.<\/p>\n<p>Diretor art\u00edstico da obra, Carlos Manga Jr. empresta um tom s\u00e9pia ao colorido vigente, o que vem muito a calhar com um aspecto bastante presente no roteiro: o racismo. Quer dizer: voc\u00ea ver\u00e1 um programa em cores, mas as paletas usadas em cena nos remetem a uma refer\u00eancia de preto-e-branco, o que empresta certo fasc\u00ednio \u00e0 narrativa.<\/p>\n<p>Estamos falando de uma cidade do interior fluminense nos idos de 1961. O per\u00edodo mencionado remexe ligeiramente em alguns estragos deixados pela ditadura Vargas, l\u00e1 atr\u00e1s, em um contexto onde o conservadorismo e a preserva\u00e7\u00e3o das oligarquias falam mais alto. Ser negro ou mulato, naquele cen\u00e1rio, fazia toda a diferen\u00e7a, e vale como um choque a quem, ainda hoje, acredita que o racismo no Brasil \u00e9 algo quase neutro, para n\u00e3o dizer inexistente. N\u00e3o \u00e9. Nunca foi. Mas j\u00e1 foi pior.<\/p>\n<p>Um plano que poderia parecer simples para encobrir um crime \u00e9 completamente desmontado por motiva\u00e7\u00e3o de dois garotos antenados, que se disp\u00f5em a entender o que aconteceu com a v\u00edtima, quase como uma brincadeira de detetive. Eduardo (Xande Valois) e Paulo (Jo\u00e3o Gabriel D\u2019Aleluia) encontram o corpo de uma mulher morta \u00e0 beira do rio onde v\u00e3o brincar, e resolvem comunicar o fato \u00e0 pol\u00edcia, que, a princ\u00edpio, quase tenta incriminar os dois pelo ocorrido.<\/p>\n<p>Antonio Fagundes entra em cena a seguir, quando os garotos j\u00e1 tentam vasculhar a casa da v\u00edtima, e mostra-se algu\u00e9m interessado na hist\u00f3ria da morta.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m reparar na presen\u00e7a de Renato Borghi, respeitad\u00edssimo no teatro e pouco usado pela TV, como o vi\u00favo em quest\u00e3o. Ter Borghi em cena \u00e9 um pr\u00eamio. D\u00e9bora Falabella faz par com o marido de verdade, Murilo Ben\u00edcio, em um casamento certamente menos feliz na fic\u00e7\u00e3o. Gabriel Braga Nunes \u00e9 outra luz, distante dos cacoetes que o assemelham em todas as novelas. Mas s\u00e3o reservadas a Mariana Ximenez as melhores frases, coroando um tom rodriguiano que toma praticamente todo o roteiro, com express\u00f5es muito comuns na obra de Nelson \u2013 como a pequena, espeto, \u00e9 batata \u2013 que contribuem para levar o espectador a viajar pela \u00e9poca em que a hist\u00f3ria se passa.<\/p>\n<p>Ainda do elenco, aten\u00e7\u00e3o a Jonas Bloch, o p\u00e1roco da cidade, igualmente premiado com \u00f3timas falas, Bernardo Bibancos, nome promissor entre os jovens talentos, que alcan\u00e7a a justa introspec\u00e7\u00e3o demandada pela narrativa, e Paulo Rocha, quase irreconhec\u00edvel na concep\u00e7\u00e3o f\u00edsica e moral do personagem.<\/p>\n<p>Resumo da \u00f3pera: vale a pena pagar para ver. Se eu Fechar os Olhos Agora \u00e9 daquelas hist\u00f3rias que habitam os anseios e as reflex\u00f5es do telespectador, mesmo passado algum tempo ap\u00f3s ter sido vista.<\/p>\n<p>JORNAL FOLHA DE S\u00c3O PAULO<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristina Padiglione Perd\u00e3o pelo trocadilho no t\u00edtulo, mas a s\u00e9rie que Ricardo Linhares adaptou do livro hom\u00f4nimo de Edney Silvestre mant\u00e9m atentos, quase estatelados, os olhos de um telespectador que vai descobrindo as camadas de uma hist\u00f3ria norteada por segredos inconfess\u00e1veis, segundo reza o fantasminha de todos n\u00f3s, e a hipocrisia da alta casta, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[59],"tags":[],"class_list":["post-2031","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-59"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.compasso-dos-ventos.pt\/editora\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2031","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.compasso-dos-ventos.pt\/editora\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.compasso-dos-ventos.pt\/editora\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.compasso-dos-ventos.pt\/editora\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.compasso-dos-ventos.pt\/editora\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2031"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.compasso-dos-ventos.pt\/editora\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2031\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.compasso-dos-ventos.pt\/editora\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2031"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.compasso-dos-ventos.pt\/editora\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2031"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.compasso-dos-ventos.pt\/editora\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2031"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}