{"id":2033,"date":"2022-07-17T15:42:55","date_gmt":"2022-07-17T18:42:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.compasso-dos-ventos.com.br\/v2.0\/?p=2033"},"modified":"2022-07-17T15:42:55","modified_gmt":"2022-07-17T18:42:55","slug":"01-10-2018-o-remanescente-de-rafael-cardoso-no-jornal-o-rascunhoherdeiro-do-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.compasso-dos-ventos.pt\/editora\/01-10-2018-o-remanescente-de-rafael-cardoso-no-jornal-o-rascunhoherdeiro-do-silencio\/","title":{"rendered":"01\/10\/2018 &#8211; O REMANESCENTE, DE RAFAEL CARDOSO, NO JORNAL O RASCUNHOHERDEIRO DO SIL\u00caNCIO"},"content":{"rendered":"<p>Em &#8220;O REMANESCENTE&#8221;, Rafael Cardoso revira \u201ca terra escura do passado\u201d de sua fam\u00edlia e de um per\u00edodo hist\u00f3rico de horror<\/p>\n<p>Por CLAUDIA NINA &#8211; 01-05-2017<\/p>\n<p>Imagine a cena: em um determinado momento da vida, uma revela\u00e7\u00e3o muda tudo o que voc\u00ea sempre pensou de suas origens. A hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 bem essa. Esquece o que lhe foi contado. Nomes, geografia e deslocamentos de parentes apontam para uma realidade absolutamente diferente daquilo que sustentou a cren\u00e7a nos alicerces de seu edif\u00edcio geneal\u00f3gico at\u00e9 o instante nervoso em que o segredo oculto vira a bomba, que vai desmoronar uma inf\u00e2ncia inteira. A mem\u00f3ria fica no v\u00e1cuo. Ser\u00e1 preciso refaz\u00ea-la. Foi o que aconteceu com Rafael Cardoso que, em vez de enlouquecer, resolveu pesquisar para entender; entender para escrever.<\/p>\n<p>A pedido do pai, a m\u00e3e de Rafael rompeu, h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, o longo e sagrado segredo familiar ao confessar que os nomes dos av\u00f3s e dos bisav\u00f4s, bem como o do pai eram outros \u2014 ele n\u00e3o viera de uma linhagem francesa, como supunha, mas alem\u00e3. E a migra\u00e7\u00e3o fora clandestina, pois o bisav\u00f4 judeu, banqueiro, ministro das Finan\u00e7as da Pr\u00fassia, colecionador de arte e intelectual de esquerda Hugo Simon, amigo de figuras do calibre de Albert Einstein e Thomas Mann, fugira do nazismo ascendente para o Brasil ao lado dos familiares e da mulher, Gertrud. Todos recorreram a identidades falsas.<\/p>\n<p>A maior perplexidade ao ouvir a hist\u00f3ria verdadeira foi a de que ningu\u00e9m havia deixado vazar nenhum cap\u00edtulo do passado soterrado \u2014 a mentira fora confecionada em min\u00facias para que todos acreditassem, inclusive Rafael, que falava em franc\u00eas com o av\u00f4. Por qu\u00ea? Medo? Vergonha? As v\u00edtimas se calaram tamb\u00e9m quanto a isso, mas \u00e9 prov\u00e1vel que tenha sido uma mistura de todos estes temores.<\/p>\n<p>Rafael Cardoso s\u00f3 veio a saber dos detalhes da origem revelada, quando, aos 23 anos, desmontou a casa dos av\u00f3s ap\u00f3s a morte deles. Foi ent\u00e3o que descobriu um arquivo de fotografias, cartas e documentos. Uma cuidadosa arqueologia familiar. As gavetas foram uma esp\u00e9cie de terra escura que era preciso cavar e cavar. S\u00f3 o come\u00e7o.<\/p>\n<p>Eis o ponto de partida e chegada de O REMANESCENTE, que refaz este percurso, de retorno aos tempos em que Hugo nem sonhava com a guerra, muito menos com sua completa descaracteriza\u00e7\u00e3o ao precisar fugir durante os anos em que Hitler avan\u00e7ava e a Europa entrava em colapso. Os detalhes, aqueles mesmos que foram negados ao autor quando lhe contaram o segredo, estes ele recupera, inventa, rebusca, a fim de dar absoluta veracidade ao texto \u2014 como uma retrospetiva em terceira dimens\u00e3o.<\/p>\n<p>O processo arqueol\u00f3gico \u00e9 descrito pelo autor, que participa da hist\u00f3ria nos chamados Interl\u00fadios:<\/p>\n<p>\u201cNo mesmo quarto onde eu e meu irm\u00e3o dorm\u00edamos quando crian\u00e7as, um tesouro de verdade me aguardava. Sozinho na casa pela primeira vez na vida, reparei numa c\u00f4moda de mogno escuro. (\u2026) Nunca lhe dera aten\u00e7\u00e3o, mas subitamente despontou na minha mente a lembran\u00e7a de que a terceira gaveta continha fotografias de fam\u00edlia. (\u2026) Ajoelhei-me \u00e0 sua frente e passei a vasculhar as gavetas, uma a uma. Elas se revelaram uma jazida espantosa de documentos hist\u00f3ricos.\u201d<\/p>\n<p>Ao lado dos fatos, vieram as muitas lacunas. As gavetas n\u00e3o disseram tudo. Era preciso cavar mais. O autor submergiu em v\u00e1rios anos de pesquisa nos arquivos da Europa at\u00e9 que, finalmente, algo pudesse ser escrito na forma da fic\u00e7\u00e3o \u2014 um romance como este precisava de muitos detalhes e de argamassa hist\u00f3rica, ainda que incrementos da fantasia fossem convocados para os ornamentos. O resultado \u00e9 um livro real, humano, com v\u00e1rias camadas de passado sobrepostas ao presente \u2014 \u201cEste livro n\u00e3o \u00e9 um simples invent\u00e1rio de achados, mas o memorial da enxada que revira a terra escura do passado\u201d, avisa o autor logo de cara, no prel\u00fadio.<\/p>\n<p>Interessante observar a expectativa de medo em rela\u00e7\u00e3o ao avan\u00e7o do extremismo na Alemanha, a partir de not\u00edcias paralisantes como a Lei para a Prote\u00e7\u00e3o do Sangue Alem\u00e3o e da Honra Alem\u00e3. Era grotesco e monstruoso demais para ser verdade. Mas era. O autor recupera os poss\u00edveis movimentos de seus av\u00f3s e familiares, como a sequ\u00eancia em que Gertrud sai da sala depois de ouvir o r\u00e1dio. Passos, temores, pequenos gestos s\u00e3o recuperados como se tivessem existido de fato, tal a riqueza humana deste livro, todo feito de microdin\u00e2micas. Assiste-se ao momento solene em que Hugo reflete sobre o que de si deixar\u00e1 para tr\u00e1s \u2014 a arte definitivamente perdida no tempo da atrocidade.<\/p>\n<p>\u201cHugo ficou sozinho no gabinete, agora renovado pela claridade. Passou a examinar as obras de arte que cobriam as paredes. Na pior das hip\u00f3teses, venderia mais uma delas.\u201d<\/p>\n<p>E quando chegam \u00e0 Fran\u00e7a, obrigados a passar pelos policiais com os documentos falsos, mais uma vez a din\u00e2mica dos m\u00ednimos gestos fala mais alto:<\/p>\n<p>\u201cVoltou-se para Gertrud, na expectativa de que ela respondesse \u00e0 sua indaga\u00e7\u00e3o muda, mas encontrou-a paralisada, o olhar fixo na cabe\u00e7a do policial. O \u00fanico movimento do seu corpo era um espasmo ocasional da m\u00e3o esquerda, jogada a seu lado no banco. Nunca antes a vira assim, transfigurada pelo pavor, nem mesmo quando abandonaram Berlim. Hugo apertou a m\u00e3o dela com for\u00e7a. Ela se assustou com o toque. O sil\u00eancio abafado do carro foi se tornando insuport\u00e1vel. Sentiu-se obrigado a romp\u00ea-lo\u2026\u201d<\/p>\n<p>Cruzando fronteiras a p\u00e9, escondendo-se aqui e ali, mentindo, adulterando a si mesmos, chegam, por fim, ao Brasil, saindo da Espanha. Novamente, falsifica\u00e7\u00f5es, a luta por se esconderem. Entre eles a tia-av\u00f3 Ursula (ou Ren\u00e9e?), que se soma \u00e0s cinco personagens centrais da trama, al\u00e9m do bisav\u00f4, dos av\u00f3s, da bisav\u00f3 e do pai do autor. No \u201cpa\u00eds do futuro\u201d, Hugo, a uma determinada altura, depois dos primeiros tempos em terras tropicais, em busca do que mais produzir, para onde se virar e no que se transformar, compara-se ao bicho-da-seda, em um dos bel\u00edssimos trechos do romance.<\/p>\n<p>\u201cHugo sentira um estranho parentesco com essas criaturas. Eram, como ele, produtos de uma cultura artificial \u2014 o extremo oposto da ideia rom\u00e2ntica de natureza que embasava a ideologia de sangue, solo e ra\u00e7a. Embora fossem muito feios, os bichinhos produziam algo de valor e beleza incomensur\u00e1veis, um artigo precioso como ouro e fe\u00e9rico como a asa da borboleta.\u201d<\/p>\n<p>E mais: o ex-banqueiro chegava \u00e0 conclus\u00e3o de que era necess\u00e1rio \u201co doloroso processo de fiar seu pr\u00f3prio casulo e se retirar do mundo \u2014 morrer um pouco, a fim de renascer em est\u00e1gio superior\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a Europa estava longe de se recuperar e continuava aos frangalhos \u2014 as not\u00edcias de l\u00e1 eram sempre assustadoras. Ou seja, n\u00e3o havia mais como retroceder. Jamais. E o que seria dele, afinal, \u00e9 a pergunta que lateja pr\u00f3ximo ao t\u00e9rmino no romance. Ele estava em Minas Gerais, sondando ainda as diferen\u00e7as culturais de uma terra long\u00ednqua, mas definitivamente adotada. Aquele seria para sempre um novo mundo, inexplorado, por mais que inventasse cultivos. O que ele era, agora, afinal? A resposta remonta ao t\u00edtulo:<\/p>\n<p>\u201cUm homem amputado do seu nome. Que h\u00edbrido esquisito se tornara: um judeu sem religi\u00e3o, um banqueiro sem dinheiro, um colecionador sem sua arte. Um agricultor sem uma terra. O que restava era o que ele era. Desse remanescente ele voltaria a se erguer. Estendeu a m\u00e3o e apoiou-se na borda da mesa. Era fria e dura sob o peso da sua m\u00e3o. \u2014 Sim, estou bem. Ainda de p\u00e9, veja s\u00f3.\u201d<\/p>\n<p>JORNAL O RASCUNHO<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em &#8220;O REMANESCENTE&#8221;, Rafael Cardoso revira \u201ca terra escura do passado\u201d de sua fam\u00edlia e de um per\u00edodo hist\u00f3rico de horror Por CLAUDIA NINA &#8211; 01-05-2017 Imagine a cena: em um determinado momento da vida, uma revela\u00e7\u00e3o muda tudo o que voc\u00ea sempre pensou de suas origens. A hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 bem essa. 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